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Espécime Raro – The Wretch

clip_image002Deixem-me contar uma historinha para vocês: Alguns anos atrás, eu trabalhava no balcão de uma loja de quadrinhos famosa aqui de São Paulo, cujo nome eu não vou dizer porque eles não estão me pagando para fazer propaganda (ainda…), e quem costuma comprar seus quadrinhos nesse tipo de loja especializada geralmente tem um dia certo na semana para passar por lá e pegar, de uma vez só, todos os títulos que anda lendo ou colecionando, e esse dia da semana geralmente é sexta ou sábado. A grande maioria dos clientes regulares segue essa agenda, e é justamente contando com isso que os responsáveis por organizar eventos para acontecer no estabelecimento programam tais eventos para sexta ou os dois dias do fim-de-semana. O visitante assíduo ou até mesmo o casual nunca chega lá com a loja deserta.

Porém, nos outros dias da semana, existem muitos momentos nos quais os atendentes ficam absolutamente sozinhos. Depois de limpar a loja, organizar as estantes e repor o estoque, ainda assim, sem ter ninguém para atender, sozinho numa loja cheia de HQs nacionais e importadas, o que um atendente deve fazer?

Ora, conhecer o produto que está vendendo!Wretch003

Foi graças a esta situação que acabei conhecendo muitas histórias em quadrinhos, principalmente importadas, as quais eu sequer sonhava com a existência e muito menos com a qualidade de tais obras desconhecidas e independentes.

Uma dessas boas surpresas foi a série a qual gostaria de apresentar agora.

A primeira coisa que me chamou a atenção nesses encadernados de The Wretch (na realidade, O encadernado, pois na época só o volume dois estava disponível na estante; acabei encomendando os outros depois) foi a maneira simples como ele se apresentava. clip_image004Somente uma cor em três tons, o logotipo da publicação e uma silhueta sinistra em nanquim sob uma ponte. A primeira coisa que pensei foi: “Deve ser um plágio do Homem-Aranha” mas decidi dar uma folheada mesmo assim. Eu não tinha nada mais urgente para fazer no momento, não tinha nenhum cliente na loja e se fosse uma história ruim, pelo menos eu poderia me divertir com meu monólogo interno venenoso que certamente eu iria elaborar sobre a obra quase automaticamente.

E fiquei completamente embasbacado pela criação do Phil Hester.

The Wretch não conta histórias centradas no personagem o qual leva o nome da publicação, nem segue uma narrativa cronológica ou com histórias interdependentes. A estrutura da obra se parece bem mais com as antigas antologias de contos de terror como Creepy e Eerie, e embora contenha características desses mesmos contos de horror, a série também tem um certo ar de comédia a cerca dos acontecimentos. Não aquele tipo de comédia escrachada, torta-na-cara, feita para você gargalhar mesmo, mas sim uma comédia para pensar “Meu, que porra é essa?” e depois só achar graça da falta de lógica da situação.

Para quem é nerd e curte histórias em quadrinhos, também vai reparar em várias referências e homenagens a elementos típicos das histórias de super-heróis, como o surgimento de um “Galactus” no local e a solução do Wretch, que o deixa bem parecido com um personagem que todo mundo conhece muito bem.clip_image006

clip_image010Todas as histórias se passam numa cidadezinha típica do interior americano, chamada Glass City. Essa cidadezinha parece ser uma espécie de “vórtice de estranhezas”, um tema recorrente em muitas obras. Veja Buffy A Caça-Vampiros para saber do que eu estou falando. Nunca assistiu Buffy? Tá fazendo o que com sua vida imprestável? Bem, voltando ao ponto, Glass City é o ponto focal de todo acontecimento bizarro possível de acontecer na ficção: Visitações alienígenas, assombrações, possessão demoníaca, monstros mutantes, é sede de companhias malignas planejando dominar o mundo, e etc. Lugarzinho muito simpático esse para se morar, hein?

A população local, obviamente, acaba sendo vítima desse tornado de maluquices que constamentente perturba a cidade. A única defesa deles contra esses acontecimentos anormais é um ser sinistro, silencioso, sempre envolvido em sombras, que aparece quando se menos espera, resolve o problema (geralmente de forma tão bizarra e inusitada quanto o próprio problema) e some, sem nunca dizer nada e sem nunca se justificar.

É no poder narrativo e no domínio de ritmo e composição de páginas que Phil Hester me ganhou quando li este volume 2 de The Wretch. Esse poder pode ser visto em vários quadros e páginas ao longo dos volumes, mas  meu exemplo preferido são as páginas iniciais do conto Snow (Volume Um). Originalmente, o próprio autor admite, essas histórias eram meramente exercícios de roteiro e composição os quais acabaram sendo publicados em antologias (mais notadamente, em Negative Burn). São coisas que ele faz nas horas vagas quando pode. E ainda assim, esse hobby rendeu contos agraciados com uma nomeação ao Prêmio Eisner de Melhor Série Nova. Não levou, mas hey, quem está reclamando?

 

 

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Outro detalhe a se notar é a profundidade sutil com a qual alguns temas são tratados nas histórias. Embora de forma alguma isso seja colocado de forma explícita, “tapa na cara” como algumas pessoas preferem dizer, ter cuidado com o que se deseja (em Happy Birthday, Volume Dois), o arrependimento por uma perda (em Rain Babies, Volume Dois), a redenção definitiva (The Wailing Woman, Volume Dois) e a persistência de um amor que resiste até depois da morte (no já mencionado Snow), todos esses temas essencialmente humanos aparecem na obra e são encarados com maturidade incomum, mesmo dentro de uma fantasia da nona arte. 2011-04-04_021126

Infelizmente, desde a publicação da coleção completa pela SLG/AmazeInk, Phil Hester nunca mais produziu nada com seu personagem misterioso e a peculiar cidade de Glass City. Provavelmente ele andou ocupadíssimo com  vários outros projetos como artista e roteirista, principalmente para a DC Comics. mas também em outras editoras. Porém, ele garante que tão logo tenha mais tempo, ele voltará a produzir mais contos de The Wretch.

Por favor, Senhor Hester, tem gente aqui esperando ansiosamente!

 

O que dá para aprender com isso?

– Não se julga um livro pela capa (duh!)

– Não se julga um autor de HQs só por seu trabalho no Mainstream.

– Quadrinhos feitos “just for fun” também podem ser bons.

– Funcionários desocupados se divertem mais.

 

Citações aleatórias!

– Good and Evil are not the contending forces in the sentient mind. They are Fear and Love. (Doomsday, Vol. 1)

– Everyone in Glass City knows what the Rain Babies are. They are all wrong. (Rain Babies, Vol. 2)

-The Wretch, dude! He saved my uncle from Bigfoot when I was little! (Devilrock, Vol. 2)

– The Wretch was like everything else in Glass City, a second-hand myth. Only one thing was certain about him. He showed up when things were weird, and when he did…They got weirder. (Exorcism 101, Vol. 3)

Leia bebendo: Coca-Cola, bem gelada.

Recomendação – VÁ ATRÁS! Mesmo sendo difícil de achar, os três volumes de The Wretch valem a pena 3 vezes: Boas histórias, boa arte e excelente narrativa.

 

 

Sobre o autor

Matheus Vale

Matheus Vale, o “HQ-Man”, é quadrinhologista, arqueocomicólogo e teórico da Nona Arte, e dedica um tempo absurdo com essas bobagens, porque ama todos esses universos.

4 comentários

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  1. EdPalhares

    To vendo que este site vai me fazer gastar mais do que eu devo… WELL PLAYED SIR!
    Fazia tempo que não lia um post tão completo sobre uma HQ que eu não conhecia.

    1. Matheus Vale

      Valeu, brother. Estou tentando fazer um blog de Hqs que fuja do óbvio. Me deseje sorte!

      1. EdPalhares

        Tu consegue de boa cara. Chute bundas! 

  2. Breno PS

    Parabéns pelo site!
     
    Gostei da dica.
    The Wretch parece ser bem legal.
    Pena que é difícil de encontrar.

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