«

»

Espécime Raro – Rising Stars: Estrelas Ascendentes

N os últimos anos, eu tenho estado numa vybe de ir atrás de séries e histórias em quadrinhos pouco conhecidas no Brasil, tentando fugir do mainstream Marvel x DC. Ah, eu compro sim e ainda leio muito os super-heróis das Duas Grandes, mas eu gosto de experimentar algumas histórias novas, se não pela novidade do que posso encontrar  mas também porquê disso, pode surgir algumas boas surpresas. Rising Stars: Estrelas Ascendentes, é uma dessas boas surpresas, e acho que vale a pena dividir a experiência com vocês. 

Eu já tinha ouvido falar de Rising Stars à muito, muito tempo, mas sempre foi um título que ficou guardado como uma lembrança lá no fundo da mente, e sempre que eu pensava nele, eu também pensava "comprarei quando não tiver nada melhor na lista para se adquirir". E este ano, acabei comprando numa promoção numa comic shop famosa de São Paulo. Admito, comprei inicialmente só o Volume 1 porque estava num pacote promocional praticamente dado, ou talvez eu jamais comprasse.

 

Para informar: Rising Stars é escrito por J. Michael Straczynski, foi o primeiro projeto para quadrinhos que ele fez depois de terminar de escrever para a série de TV Babylon 5 (da qual eu sou fã) e é considerado seu magnum opus na nona arte (embora eu considere que seja Midnight Nation, mas falarei dela outro dia). Supostamente esta HQ foi responsável pela contratação do JMS pela Marvel para escrever seu personagem solo principal, O Homem-Aranha. Não é pouca responsabilidade para se colocar numa obra apenas, então eu resolvi dar uma olhada.

 

 

Basicamente, Rising Stars conta a história, desde o nascimento até o destino final, de 113 pessoas com super-poderes (os "Especiais de Pederson"), nascidas na cidade fictícia de Pederson, Illinois, e afetadas enquanto estavam nos seus respectivos úteros maternos por uma energia misteriosa, cuja origem foi a explosão de um meteoro na atmosfera acima da cidade. A história é toda narrada pelo ponto de vista de um desses  "Especiais", chamado O Poeta, um dos seis personagens que recebem foco maior dentre os 113 de Pederson. Durante a vida desses personagens, eles encaram problemas que variam desde o medo e o preconceito que suas existências geram nos cidadãos comuns, guerras assustadoras (quando resolvem lutar uns com os outros) até a realização de milagres e maravilhas pelo bem de toda a humanidade (quando resolvem deixar suas diferenças de lado e trabalhar juntos).

 

J. Michael Straczynski, a Verdadeira Estrela

 

A grande estrela de Rising Stars é verdadeiramente seu autor. JMS estava em plena forma nessa época (a obra começou a ser lançada lá fora em 1999 e terminou em 2005) e seu roteiro é sólido, bastante real (até onde um conto sobre pessoas super-poderosas pode ser real). Diria até que um dos grandes charmes do roteiro é o fato de tudo ter uma consequência, seja ela imediata ou posterior, e tanto os personagens comuns quanto os "Especiais" sabem disso, e portanto agem de acordo. Suas meras existências afetam o mundo ao seu redor e a percepção das pessoas muda a cada ato, seja ele desastroso ou milagroso, e J. Michael Straczynski conseguiu deixar isso muito palpável, principalmente a partir da metade do volume 2 até o fim do volume 3. Os Especiais, por sua vez, também são afetados e evoluem ao longo da saga (em mais de um sentido), e evolução na caracterização dos personagens é algo essencial numa boa história.

 

Os capítulos tem um feel de série de TV, o que não é estranho tratando-se de quem escreveu, com a trama sendo puxada cada vez mais adiante e cada vez mais complexa no final de cada fascículo. Eu ousaria dizer que, se Heroes tivesse sido bem escrito, ele seria parecido com Rising Stars.

 

O roteiro é brilhante, já a arte….

 

Já falei da grande vantagem dessa obra, que é o roteiro. Agora, vou falar da sua maior desvantagem. Entendam, quando Estrelas Ascendentes começou a ser publicado nos Estados Unidos, foi justamente no ano de 1999, e foi justamente pela Top Cow Productions, um dos selos da Image Comics dos mais infames por ser EXTREEEEEME. Ou seja, a obra sofre de um "Anosnoventismo" grave na arte! O domínio de anatomia e perspectiva de Keu Cha, o primeiro artista, é fraquíssimo, e logo ele foi substituído pelo igualmente fraco, porém menos hediondo, Christian Zanier. 

 

A coisa só vai melhorar no Volume 3, quando Brent Anderson assume os lápis. Isso deixa o final da história realmente bem melhor de se ler, embora o tal Anderson tenha feito uma escolha narrativa bem triste justamente no último quadro! Não vou dar spoilers, se vocês lerem, vocês concordarão comigo. Na minha opinião, as escolhas desses artistas prejudicou muito a visão pretendida pelo escritor.

 

No fim das contas, Rising Stars: Estrelas Ascendentes é uma boa HQ para se procurar e ler. Tente relevar as falhas na arte pela boa qualidade do roteiro, pois vale a pena. No Brasil, foi lançada uma edição encadernada do Volume 1 pela Mythos, mas foi muito mal executada e a impressão é bem sofrível. Dê preferência para a edição da Panini, que conseguiu lançar os três volumes completos + extras em 3 minisséries: Volume 1 (5 fascículos) e Volumes 2 e 3 (4 fascículos cada). 

 

O que dá para aprender com isso?

 

– Dá para fazer obras "realistas" com super-heróis, além de Watchmen.

– Escolha bem seus artistas para não quebrar a cara depois.

– Rising Stars deveria ter sido Heroes, e vice-versa.

– Preste atenção na sua cabeça quando ela trouxer à tona aquele pensamento perdido.

– Promoções absurdas são sua oportunidade de comprar coisas boas que nem parecem tanto assim.

 

Citações Aleatórias!

 

– "Nós achamos que tínhamos sido tocados pelo Dedo de Deus. Ficamos tão atordoados que nos esquecemos de perguntar: Qual dedo?"

– "Nós temos um problema em Pederson."

-(Corvo Sombrio): "Já visitou Chicago nos últimos tempos, John?"; (Poeta):  "Não." (Corvo Sombrio): "Pois é. Nem você, nem ninguém!"

– "Mudem o Mundo. Ou nós mudaremos por vocês!"

 

Leia comendo: Pipoca, se conseguir fazer isso sem melecar a revista toda com sal e manteiga.

 

Recomendação: Procure conhecer! Mas preste atenção: Se você for um art freak você pode se decepcionar um pouco, embora o roteiro compense isso.

 

 

Sobre o autor

Matheus Vale

Matheus Vale, o “HQ-Man”, é quadrinhologista, arqueocomicólogo e teórico da Nona Arte, e dedica um tempo absurdo com essas bobagens, porque ama todos esses universos.

6 comentários

Pular para o formulário de comentário

  1. Chuck

    Essa série foi de fato muito boa. Cheguei a pegar os 2 primeiros volumes encadernados, mas não consegui achar a conclusão na época. Não sabia que a Panini tinha publicado a saga inteira, preciso correr atrás do terceiro volume!

  2. EdPalhares

    Não dei uma chance a esta série exatamente por causa da arte na época que foi lançada. Vamos ver se eu acho agor pra comprar, poi  post me deixou bem curioso. Parabéns! 

  3. André Mendes

    Olá, muito bom o post, acabei de ler o primeiro volume da Mythos. Só para confirmar: não existe encadernados 2 e 3 da mythos?

    1. Matheus Vale

      Infelizmente não, a Mythos só publicou um encadernado, e não tem planos de continuar.

  4. Alysson Lisboa

    Concordo com muita coisa dita nesse texto. A HQ é genial; em termos de hqs com revisões sobre o papel do super-heróis num contexto histórico-social está entre as melhores, hqs e livros, como: Cartas-Selvagens, O Legado de Júpiter, e o início da série de TV Heroes.O texto e o desenrolar da estória são magistrais. Mas peca muito pela qualidade da arte.A pimeira vez que vi repudiei a revista só pela arte (nem sou um art freak), me lembrou anos 90( o que houve de muito ruim na década, pois há coisas muito boas) e uma onda de desenhos e artes de hq muito parecidas com que Rob Liefield fazia ( com todo respeito para que gosta dele). Acho que daria uma excelente série de TV.

  5. Roberto costa pereira

    Excelente post , eu tive sorte na época de pegar as 13 edições da Panini , e li já ha algumas tempo mas depois de ler aqui me deu vontade de visitar novamente essa obra !

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *