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Espécime Raro – Belém Imaginária

Capa

Putz, essa é uma história em quadrinhos que me enche de orgulho. Não que eu tenha alguma coisa aver com sua realização, mas sim por ser uma HQ 100% concebida no meu estado-natal, o Pará, por profissionais da região norte. E putamerda, que trabalho incrível eles fizeram!

Belém Imaginária conta a história de Saulo, um garoto belemense que misteriosamente desperta numa versão de conto-de-fadas da Cidade de Belém do Pará. Nessa cidade, as criaturas fabulosas do folclore da região são vivas e dividem espaço com animais antropomorfos e outros humanos. Imediatamente se metendo em encrenca após seu despertar nesse local ao mesmo tempo familiar e estranho, Saulo é salvo pela indiazinha aprendiz de pajé Iaçá.

A partir daí, Saulo e Iaçá partem numa jornada para levar o menino de volta ao seu mundo, através do espírito de uma cidade, um mundo cheio de perigos e seres lendários, encontrando aliados, como o macaco Enilson, e atraindo a atenção de inimigos terríveis, principalmente a nefasta e inominável Matinta-Perera.

Cara, quando eu era moleque, eu morria de medo das histórias da Matinta. E eu desafio alguém a encontrar algum moleque no interior do Pará que, ao ouvir das suas avós sobre as maldades da Matinta, ainda não se borre de medo hoje em dia só de pensar em receber a visita dessa bruxa velha nas madrugadas nos municípios onde a energia elétrica ainda não chegou.

E a obra?

Contando com o apoio do Governo do Estado do Pará numa ação proativa, Belém Imaginária foi feita a oito mãos, e os responsáveis são Volney Nazareno, escritor e designer dos personagens, Carlos Paul e Otoniel Oliveira nos desenhos, e Fernando Augusto na arte-final. A revista, de 64 páginas e tamanho álbum, é totalmente colorida e pintada à mão por Fernado e Otoniel. Segundo os autores, a intenção era de criar uma história em quadrinho digna das edições bande desineé européias, e eu creio terem conseguido cumprir o intento com louvor.

A linguagem da HQ simula os trejeitos e sotaque do povo paraense, e isso é fantástico! As expressões regionais mais comuns estão presentes nos diálogos dos personagens de forma muito natural. Se você não sacar, toda expressão muito incomum possui um rápida explicação na própria página, para garantir o entendimendo dos "caboco do sul".

Belém Imaginária pode significar muitas coisas. Pode ser uma homenagem à uma cidade que possui uma história fascinante. Pode ser um conto-de-fadas infanto-juvenil, diferente por explorar a rica cultura amazônica em vez das costumazes lendas européias, pode ser uma aventura bem-sucedida de quatro papa-chibés* no complicado mercado da arte sequencial.

Para mim, Belém Imaginária é uma viagem emocional que me carrega de volta à minha infância, na cidade onde nasci e me criei, aos costumes e tradições as quais, embora afastado por mais de 3.000 quilômetros, nunca saírão do meu coração.

E acima de tudo, Belém imaginária é a prova cabal de que o quadrinho nacional tem muito, muito a oferecer, tanto em termos de história quanto talentos. Os leitores obtusos, prontos a desqualificar artistas e obras brasileiras, de qualquer região, deveriam pensar duas vezes diante de obras de tal qualidade excepcional.

Mapinguary

O que dá para aprender com isso?

– O Brasil tem 5 regiões. Tirem a cabeça da Sudeste um pouquinho?

– Quadrinhos pintados são foda para caralho!

– Matinta-Perera mataria a Loira do Banheiro de medo.

– Talento nacional para obras nacionais: É possível!

– A Boiúna ainda dorme sob a cidade de Belém.

– Esse quadrinho é pai d'égua e me deixa cuíra de saudade, mas sem pavulagem. What?

Citações aleatórias

– (Saulo) "Que lugar esquisito é esse?" (Orlando) "Ora, tu num sabes? Aqui é a Antiga Terra das Mangueiras!"

– "É ela. A Bruxa-Velha. Tá indo agourar alguém por perto. Foi buscar 'A Encomenda'"

– "EU EXISTO. Não nasci do credo de ninguém! Eu sempre estive aqui! (…) Já disse que sinto muito pela sua pena, mas quero meu amigo de volta!"

Leia tomando: Açaí, o mais apurado possível, somente com açucar e farinha de tapioca. E ouça um CD do Nilson Chaves.

Recomendação: Infelizmente, descobri que está esgotada, portanto, a não ser q você tenha parentes em Belém que já tenha a revista, dificilmente você a conseguirá. Mas que vale muito a pena, vale!

*: Papa-chibé é como se chama popularmente quem nasce no Pará; Um paraense.

Sobre o autor

Matheus Vale

Matheus Vale, o “HQ-Man”, é quadrinhologista, arqueocomicólogo e teórico da Nona Arte, e dedica um tempo absurdo com essas bobagens, porque ama todos esses universos.

5 comentários

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  1. Nane Ulsan

    Como faz? Quero ler!

  2. Andrei Rated

    Adorei a matéria e a HQ, me deu vontade de conferir.

  3. Aline

    Sensacional! 
    A capa é maravilhosa!

  4. Elizabeth

    Onde encontramos material desse autor? Ele tem site?
    Gostaria de publicar alguns dos personagens folclóricos que vi
    aqui: Mapinguari, Matinta Perera e outros se houver…
    Elizabeth
     
     

    1. Matheus Vale

      Eu sei que o Volney Nazareno tem uma página no Portal do Ilustrador: ilustradores.ning.com

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