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Impressões sobre o New 52, o Reboot da DC Comics

Numa parceria com Laura Buu, do Pink Vader, o Quadrinhossauro dá suas impressões sobre o polêmico reboot da DC Comics!


Laura Buu, criadora e editora do Pink Vader, diz em seu depoimento:

Estou querendo escrever esse texto desde que o primeiro quadrinho do “reboot” da DC Comics foi lançado, mas achei melhor ler o maior número de títulos possível antes de comentar algo. Um mês depois e 39 títulos mais tarde, já me sinto mais segura em esboçar uma opinião, mesmo que tímida, sobre esse proposto “novo universo” que, teoricamente, seria a porta de entrada perfeita para novos leitores alheios a toda a bagagem de alguns dos personagens mais icônicos de todos os tempos.

As vendas estão indo muito bem, mas duvido que esses números vão se manter. O motivo é bastante simples: de 39 HQs lidas, cerca de 10 realmente prenderam a minha atenção e me deixaram com vontade de continuar adiante. Tenho certeza de que não fui a única leitora a se empolgar com pouquíssimos títulos.

O principal culpado aqui são os fracos roteiros aliado a uma sensação constante de que nada mudou. No final, acho que esse “reboot” deve ser tratado assim mesmo, entre aspas. A DC Comics se propôs a fazer uma reforma gigantesca, mas não teve coragem de assumir todos os riscos que tal ação necessita para ser bem sucedida. A ideia era montar o universo de tal forma que qualquer novato pudesse ser apresentado a um novo super herói sem a sensação de pegar o bondinho andando, por assim dizer. Não conseguiram. Isso fica claro logo no primeiro título lançado, Justice League of America #1. São 25 páginas de um Batman sem graça aturando as pirraças de um Hal Jordan mala com um Superman que desce o sarrafo sem nem dizer oi antes. Você começa sem entender nada e termina pensando porque raios você está lendo aquilo. Aqui, também, fica claro outro grave problema com o The New 52: personagens vazios e roteiro sem profundidade. Obviamente que nem todos os quadrinhos lançados são assim, mas são em número suficiente para incomodar e colocar em questão a qualidade da coleção.

Ao mesmo tempo que a DC tenta se adaptar ao cenário atual e se modernizar, temos a Marvel fazendo a exata mesma coisa com o Homem-Aranha do universo Ultimate. Fica aqui um exemplo extremamente positivo de como começar uma história do zero agradando tanto os leitores mais antigos como também atraindo novos. A Marvel ousou e abraçou sem medo a proposta do reboot, foi essa ousadia que tanto me fez falta na DC. Não quero reler histórias antigas contada de formas ligeiramente diferente, quero material novo. Quero originalidade.

A sensação que fica é que a DC visa apenas lucrar com todo esse lance de reiniciar suas histórias e se esquece que o leitor de hoje não é o mesmo de 20 anos atrás. Nos anos 90, roteiros sem muita força tinham seu público garantido. Mas hoje em dia, com tantos títulos de qualidade por ai sendo distribuídos pela Dark Horse, Image Comics e outras editoras, o leitor vai fazer uso do filtro e ficar apenas com os quadrinhos que realmente o agradam. E é por esse motivo que não acredito que o número positivo nas vendas vá se manter.

Explicado o porque, no geral, não achei The New 52 empolgante, cabe citar os quadrinhos que me cativaram e indico a leitura: Swamp Thing, Animal Man, Action Comics, Batwoman, Wonder Woman, Supergirl, Catwoman e Aquaman. Recomendo qualquer um desses títulos.

E aposto todas as minhas fichas que o grande destaque será a volta triunfal do Aquaman. Não pelo fato de terem escalado o mesmo time campeão responsável pelo Lanterna Verde: A Noite Mais Densa, o roteirista Geoff Johns e os desenhistas Ivan Reis e Joe Prado, mas sim porque a primeira edição dessa história soube trabalhar muito bem o fato do personagem ser uma grande piada. Tanto é que toda essa zoação com Arthur Curry é um elemento importante no desenvolvimento da trama. A DC precisa de ideias novas e fugir da mesmice e é exatamente isso que vão conseguir investindo no Aquaman.

GO, GO, AQUAMAN <3

Ps. É mentira que o Aquaman não tem nenhum fã. ELE TEM A MIM!

 


Quando a Laura me pediu para dar minha opinião sobre o Novo Universo da DC, eu ainda não tinha formado nada. Eu havia lido apenas a Flashpoint #5, que é a porta de entrada para o reboot, embora realmente não explique muita coisa e deixe um monte de pontas soltas, e a JLA #1, numa edição que eu considero um pouco imatura, lenta, só apresenta dois personagens concretamenta e introduz um Superman que bate primeiro e pergunta depois, totalmente fora das características do Superman que conhecemos. Não achei que foi uma introdução digna de todo o hype revolucionário que esse lançamento vinha gerando, me deixando com uma sensação de “Eu não ligo para esse novo Universo”. Então decidi esperar para ver o que as próximas teriam para me mostrar.

E agora, depois de realmente ter lido todas as edições que saíram até a presente data (27/09/2011), eu posso dizer que… Meh.

No geral, continuo com a sensação de não ligar muito para esse novo universo. Dos 39 títulos lançados até agora, somente um punhado me empolgou de verdade, incluindo Animal Man, Swamp Thing e Action Comics, mais porque os roteiristas responsáveis são muito competentes (Jeff Lemire, Scott Snyder e Grant Morrison, respectivamente) e souberam guiar muito bem os personagens, e porque fazem parcerias com artistas realmente brilhantes. As sacadas narrativas em Animal Man valem a revista e a arte de Yanick Paquette em Swamp Thing está impecável. O novo/velho approach do Grant Morrison no Superman, retornando-o as suas raízes de justiceiro mais interessado na justiça que na lei surpreendeu e é muito bem-vinda, principalmente considerando que é um roteiro livre muito acessível, livre das doidices pelas quais o Morrison ficou famoso. Também gostei de JLI e Stormwatch, são divertidas e parece que terão o papel de “colar” todo esse DCnU numa trama coesa, principalmente Stormwatch. Wonder Woman também promete, finalmente a Amazona da DC merecia uma reformulação relevante e espero que dessa vez dê certo. Além dessas, dois títulos pertencentes ao Batman (Batman e Batman & Robin) mantiveram a qualidade que possuiam pré-reboot, a única mudança significante foi a aparente atitude mais positiva do Homem-Morcego em relação a sua missão de combate ao crime. E Batwoman é O TÍTULO MAIS BONITO de todos até agora.

Já no outro lado da moeda, fiquei extremamente decepcionado com a Detective Comics, que não empolga, não revela nada e o Tony Daniel parece tratar as interações do Batman com o Coringa com total frivolidade. Batgirl também avança em ritmo lento e com vários problemas de coesão no roteiro, mas Gail Simone domina a personagem, falta ver se leva o título para um bom caminho. E tem Catwoman, que anda criando alguma polêmica por causa das cenas de softporn, mas no geral não achei nada imperdoável na revista. Men of War, Static Shock, Deathstroke, Batwing, OMAC, Grifter e Suicide Squad tem tão pouco impacto que sinceramente, eu nem lembro de ter lido.

 

Os títulos do Lanterna Verde (Green Lantern, Green Lantern Corps e Red Lanterns) não sofreram alteração nenhuma nas histórias pré-reboot, então se você estava acompanhando esses títulos, não sentirá absolutamente nada fora do normal na cronologia. Mas se você não acompanhava, não serão bons títulos para se começar a ler agora, o que vai contra a “filosofia” do reboot. O mesmo vale para os títulos da Legião de Super-Heróis.

Agora, se você realmente quer criar ódio desse reboot, a pedida é a Green Arrow e Red Hood. O Arqueiro verde ficou completamente deturpado, o carismático industrial garanhão socialista foi substituído pela sua versão aguada e bobinha de Smallville. A revista é pura ação, mas é uma ação sem conteúdo e não leva você a lugar nenhum e ainda te enche de desprezo. A mesmo problema de personalidade aparece em Red Hood and The Outlaws. Os dois personagens masculinos se tornaram dois babacas enquanto a Starfire perdeu completamente seu charme pré-reboot, se tornando uma pessoa vazia, amnésica, sem amigos, sem sentimentos, entediada e obcecada por sexo. Aparentemente Scott Lobdell está usando a revista para dar vazão as suas persistentes fantasias imaturas da década de 90.

E tem Hawk & Dove. Desenhada pelo Rob Liefeld. Precisa comentar?

No geral, ainda não dá para saber onde a DC quer chegar com esse reboot. Se o objetivo deles é alcançar altas vendas e atrair novos leitores, os números indicam que pelo menos o primeiro desses objetivos eles já atingiram. Mas com a qualidade das histórias até agora, a maioria sem lustro, sem novidade, “mais-do-mesmo” , não sei por quanto tempo essa vendagem pode se manter. Outra estratégia adotada por alguns autores é apelar para cenas extremas de sexo e violência, com o objetivo de chocar e polemizar, mas essa tática nunca dá resultados a longo prazo, principalmente se associadas a roteiros ruins. Eu vi pessoas comparando sensação de ler essas revistas com a sensação que tinham ao ler quadrinhos 15 anos atrás. Só que 15 anos atrás estávamos em plenos anos 90! Sim, HQs vendiam muito bem naquela época mas a qualidade do mercado em geral, tanto no roteiro quanto na arte, era sofrível. Fora que o mercado hoje está completamente diferente, tendo que lidar com problemas como a pirataria, altos preços e a nascente (e ainda confusa) distribuição digital.

Não me surpreenderia se a DC Comics não tivesse colocado uma salva-guarda para o caso de todo esse Novo Universo não dar certo… Alguém viu uma Mulher de Roxo por aí?

Sobre o autor

Matheus Vale

Matheus Vale, o "HQ-Man", é quadrinhologista, arqueocomicólogo e teórico da Nona Arte, e dedica um tempo absurdo com essas bobagens, porque ama todos esses universos.

1 comentário

  1. John Constantine

    Não me surpreenderia se a DC Comics não tivesse colocado uma salva-guarda para o caso de todo esse Novo Universo não dar certo… Alguém viu uma Mulher de Roxo por aí?
     
     
    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
    Muito boa essa parte!, parabens, belo texto!

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