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Espécime Raro – The Coffin

  E vejam só quem aparece de novo aqui na coluna Espécime Raro: Phil Hester! Eu admito que sou muito fã desse cara desde que li The Wretch. Ele é um ótimo desenhista e não faz feio no roteiro. E em The Coffin, o roteiro é todo dele!

 

  E se o Dr. Frankenstein fizesse um monstro… de si mesmo?

  Um tópico que eu discuto frequentemente com meus amigos leitores de quadrinhos é a questão dos clichês. Na crise de criatividade da indústria de entretenimento nos tempos contemporâneas, acabamos chegando a conclusão que é impossível escapar de incluir clichês, mas faz toda a diferença como esses clichês são usados. The Coffin, inicialmente, parece ser uma colagem de elementos de Cyberpunk, super-herói e horror sobrenatural e inclui os clichês clássicos desse gêneros (Alta tecnologia dominada por grandes corporações acima da lei que garante "super-poderes" para quem as tem em mãos, envolvidos no plano de um ser tenebroso de outra dimensão). Mas nas mãos do escritor certo, essa mistureba funciona!

  O Doutor Ashar Ahmad, a exemplo do clássico Victor Frankenstein, é um gênio científico com uma obsessão muito séria com a morte e o pós-vida. Uma obsessão que o transforma num babaca aos olhos de seus colegas, principalmente de Liv Goldenthal, com quem ele tem uma filha e a ignora totalmente. Babaca!

  Essa obsessão o leva a criar um polímero extra-fino, extra-resistente e completamente hermético. É tão impermeável que, se envolver uma pessoa dos pés a cabeça com o material momentos antes da morte, o material consegue capturar a ALMA da pessoa dentro de um exoesqueleto, junto com seu cadáver. Esse é O CAIXÃO do qual se trata o título. Parece legal, não é?

  Bem, Oliver Heller também acha.

  O industrial do mal vem se mantendo vivo a mais de um século usando métodos cada vez mais bizarros de restauração corporal, e agora ele quer a invenção do Doutor Ahmad para usá-la como a resposta definitiva para a vida eterna, e ele vai tentar obter O Caixão de qualquer maneira. O doutor Amad não vê alternativa a não ser usar o processo experimental em si mesmo.

 

  Reflexões sobre a Vida, a Morte e o Inferno.

  Toda essa premissa sugere uma história em quadrinhos cheia de ação, aventura e porrada, e ela tem isso nas doses certas, mas também contém muitas reflexões sobre o que é a morte, a loucura e o pós-morte. Logo depois de passar pelo processo traumático de morrer e ter sua alma presa numa máquina, o doutor Ashar passa a ser assombrado por um ser que se diz o próprio Satã (e por ser ateu, o doutor tenta rejeitar essa alegação com toda a força), lançando na cara do doutor todos os erros que ele cometeu na vida e desafiando-o com a futilidade de tentar consertá-los agora que está morto. Seriam essas visões reais ou frutos do trauma de ter sua alma presa na Terra?

 

  Arte assombrosa.

  Diferentemente de The Wretch, a qual o próprio Hester ilustra, a arte em preto e branco de The Coffin fica a cargo de Mike Huddleston, e é consistentemente IMPRESSIONANTE ao longo da edição. Huddleston faz desenhos com detalhes intrincados mas que nunca parecem exagerados ou inverossímeis. Ele tem um domínio de luz e sombra elevado e isso garante o clima dark certo para a trama. Algumas ilustrações parecem pular para fora da página. Ele é tão bom que a arte consegue distrair você de um eventual "buraco" no plot.

 

  "O longa que deu origem à série"…?

   O único problema que eu percebi em The Coffin é que ele deixa alguns pontos sem resolução. Fica a impressão que a minissérie original em quatro partes deveria ser o primeiro arco de uma revista ongoing, o que no final acabou não acontecendo. Um dos personagens, introduzido logo no começo e que promete ter um grande desenvolvimento posterior simplesmente é cortado apressadamente algumas páginas depois. A verdadeira intenção do ser que assombra o doutor nunca é satisfatóriamente explicada. No entanto, confesso só ter me tocado desses problemas agora, enquanto relia para escrever esse review. Enquanto se está lendo por diversão, o roteiro te prende e a arte te hipnotiza, portanto, considero um ótimo quadrinho para se ler em qualquer ocasião.

  Minha edição é um encadernado de 2002 fora de circulação. Ano passado, a Oni Press lançou uma edição especial capa-dura com extras e algumas (não todas) páginas coloridas. Procure essa se você quiser ler.

  Neste exato momento, um filme baseado em The Coffin está sentaddo no limbo de Hollywood.

 

O que dá para aprender com isso?

  • – Todo cientista pensa em usar processos experimentais perigosos em si mesmos.
  • – Todo industrial ricaço quer viver para sempre.
  • – Cachorros tem alma.
  • – Nonoxynol 9: a resposta mais babaca do Universo.
  • – Se você vai dar super-poderes para seus lacaios, tenha certeza que eles não vão se revoltar!

 

Citações Aleatórias!

  • – "When you die there is nothing. No gauzy clouds. No angels. No maudlin life review. And certainly no god-damned tunnel of light!"
  • – (Dr. Ahmad) "There is no Hell!" (Satan) "You are very nearly right, sinner! There is no single Hell, but many. So many!"
  • – "Great. Now I'm Plastic Man. Even better, a dead Plastic Man."
  • – "Even a soul small and twisted, so petty and full of fear, is beautiful beyond words."

 

Leia Bebendo: Uma cervejinha gelada de boa qualidade, pode ser artesanal.

Recomendação: LEIA! A edição capa-dura de 10 anos ainda pode ser encontrada na Amazon e está MUITO barata! Geralmente os reviews do Espécime raro são dificeis de achar, mas agora tá fácil! Corre lá!

 

 

Sobre o autor

Matheus Vale

Matheus Vale, o “HQ-Man”, é quadrinhologista, arqueocomicólogo e teórico da Nona Arte, e dedica um tempo absurdo com essas bobagens, porque ama todos esses universos.

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