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Espécime Raro – Xenozoic Tales

Se você foi estava na sua adolescência durante a década de 1990 do Século 20, é muito provável que você tenha frequentado fliperamas. Estes templos da diversão abrigavam em suas entranhas os jogos mais divertidos com os melhores gráficos e sons já feitos, antes que as gerações de consoles domésticos posteriores viessem a ultrapassá-los tecnologicamente a partir com começo do século 21. Se você ia a esses lugares, você deve ter visto, ou jogado, um game do tipo Beat'em Up no qual personagens saiam remodelando a socos a cara de punks num cenário pós-apocalíptico maluco onde humanos, dirigindo Cadillacs iradíssimos, e dinossauros mutantes conviviam. Estou falando do nostágico Cadillacs & Dinosaurs.

Embora essa marca esteja associada aos jogos de arcade e do Sega CD, action figures, cards, e até uma série animada, pouca gente gente sabe que na realidade Cadillacs & Dinosaurs tem suas origens nos quadrinhos, e muito menos gente chegou a ler os comics a dar origem a franquia, a série XENOZOIC TALES, escrita e desenhada por Mark Schultz, cuja publicação começa em 1987.

Cenário Fantástico

Logo na primeira página da primeira edição de Xenozoic Tales, Schultz já nos deixa a par da grande ideia concebida por ele: No final do século 20, uma série de misteriosas catástrofes geológicas e atmosféricas começou a devastar a superfície do planeta. Sem condições de continuar vivendo sobre a Terra, a humanidade, para evitar a extinção, escondeu-se durante séculos em abrigos subterrâneos, esperando por 450 anos pela chance de retornar e rever o céu. Mas no dia que finalmente saíram de suas cavernas de volta à superfície, tiveram uma grande surpresa.

O Mundo havia mudado, mas muito mais do que esperavam. Não apenas a geografia havia se alterado radicalmente e em tempo geológico recorde – cidades submergiram, novas montanhas e desertos surgiram – mas os ecossistemas estavam completamente transformados. Mais que isso, a ecologia estava em um estado impossível: Dinossauros haviam retornado a caminhar sobre a terra, juntamente com mamíferos gigantes, peixes pré-históricos, e novas espécies mutantes nunca antes vistas antes do Grande Cataclisma. Para todos os efeitos, este novo cenário constituia um grande paradoxo, o começo da Era Xenozóica.

Com a população escassa e isolada, a humanidade retornou às estruturas tribais, com os agrupamentos próximos lutando por recursos e território, mas principalmente, por tecnologia. A tribo com maior capacidade tecnológica sempre obtém vantagem sobre as outras, e indivíduos capazes de lidar com ela, reparando relíquias desenterradas e criando novos inventos, são muito prezados.

Jack e Hannah

A saga de Xenozoic Tales foca principalmente nos personagens de Jack "Cadillac" Tenrec, um mecânico cabeça-quente, aventureiro, inventor e meio xamã, morador da Cidade do Mar (City in The Sea) e Hannah Dundee, misteriosa e inteligente embaixadora da Tribo Wassoom com uma missão secreta.

Jack é um mecânico, inventor e um homem-de-ação. Possui uma grande consciência ecológica (tema recorrente na publicação) e compreende que neste novo ecossistema eclético, o Homem precisa aprender a conviver com as espécies pré-históricas restauradas ou a humanidade pode acabar extinta de uma só vez. Seu passatempo é encontrar carros antigos, principalmente Cadillacs, e fazê-los funcionar novamente. Como a técnica necessária para perfurar e destilar petróleo se perdeu com o Cataclisma, Jack criou uma forma de transforma guano (fezes) de dinossauros em combustível. Jack foi o primeiro a encontrar e estabelecer relações com os Gryth, uma raça inteligente de humanóides reptilianos, fato que ele mantém em segredo por respeito aos Gryth. Jack tem um alossauro treinado, Hermes.

A bela e inteligente Hannah é uma embaixadora da Tribo Wassoon, recém-chegada à Cidade do Mar numa missão diplomática para obter reparação contra um grupo de saqueadores os quais atacaram sua tribo e se esconderam na Cidade. Ela, no entanto, tem intenções misteriosas as quais escapam da sagacidade de Jack, para o seu desespero e desconfiança. O objetivo principal de Hannah é obter mais conhecimento e tecnologia para compreender como e porque o mundo se transformou de forma tão ilógica desde o Cataclisma.

Logo na sua chegada, os saqueadores tentaram assassinar Hannah, mas foi salva pela interferência de Jack. Desde então, os dois estão sempre envolvidos em todo tipo de aventura no melhor estilo pulp, apostando corrida de Cadillac contra manadas de dinossauros, perseguindo saqueadores, resgatando cientistas amadores de encrencas no meio das florestas, esquivando-se de intrigas políticas inter-tribais e juntando as peças do quebra-cabeças global das origens da Era Xenozóica. Apesar de toda a ação, a série não usa isso de forma desmiolada, e o desenvolvimento é muito mais profundo e bem desenvolvido que nos produtos licenciados, num ritmo que só é bem aproveitado realmente na mídia das histórias em quadrinhos. A tensão sexual entre os dois personagens é tratada com muito tato e sutileza, sem nunca ser agressivo ao leitor e ao mesmo tempo, deixa aquela sensação de "preciso ler o próximo capítulo!"

A arte de Mark Schultz.

Mark Schultz é um daqueles raros quadrinhista que pode ser chamado de artista completo. Como roteirista, ele consegue tecer histórias não apenas muito legais de se ler, como também com várias nuances e sub-temas, sempre apresentados com sutileza suficiente para você não se sentir agredido com contundência, mas sem ser críptico ou cabeçudo demais. Entre esses temas estão a ecologia, a política, e o uso (para o bem ou para o mal) que a humanidade faz da ciência e tecnologia. A estrutura da publicação, com uma história principal e uma ou duas histórias menores, permitiu ao autor dar asas a imaginação e criar contos curtos mas muito criativos, além do conto principal com um metaplot muito bem desenvolvido.

Em relação aos desenhos, Schultz é um detalhista da mesma escola de Al Williamson, Hal Foster e Wally Wood. Com grande domínio de anatomia e fisionomia, seus personagens nunca parecem estáticos ou sem expressão, mesmo quando em descanso. Tudo tem uma grande senso de dinâmica, o que é de se esperar num quadrinho de muita ação. Seus cenários também são absurdamente detalhados, tanto os urbanos quanto os florestais. Talvez seja por causa de tanto detalhamento que as edições de Xenozoic Tales demoravam tanto para sair entre uma e outra. A partir de edição 12 (publicada um ano depois da 11), ocorre um salto espetacular na qualidade do traço de Schultz, e o que já era bom fica ainda melhor.

A série foi inteiramente planejada para ser em preto-e-branco, e esta é a melhor forma de apreciar o traço de Schultz. Comparando-se as edições originais de Kitchen Sink Press e as republicações coloridas de Epic (selo da Marvel) pode-se perceber muito bem o porque dessa decisão inicial.

Publicação mais que complicada.

A publicação original de Xenozoic Tales pela Kitchen Sink Press e a maneira como a obra entrecruza com ela mesma, pela Epic, e com Cadillacs & Dinosaurs, publicado pela Topps com roteiro e arte de outros profissionais, é muito dificil de se compreender.

Inicialmente publicada como revista própria em fevereiro de 1987 depois de ter uma história lançada na antologia Death Rattle em 1986, Xenozoic Tales seguia uma agenda bimestral regular somente nos três primeiros números, com o número 4 lançado com cinco meses de atraso. Depois disso, os prazos foram só aumentando, com a série terminada em 1996 com apenas 14 edições. Chegaram a haver atrasos de mais de dois anos entre as edições 12-13 e 13-14.

Enquanto Xenozoic Tales estava saindo pela Kitchen Sink, a Marvel republicou as 6 primeiras edições, desta vez coloridas, pelo seu selo Epic, entre os meses de novembro de 1990 e abril de 1991, trocando título original pelo título mais comercial (e que todo mundo lembra) de CADILLACS & DINOSAURS. Esta foi uma tentativa de capitalizar a franquia, e deu certo por um tempo. Graças a esta estratégia, Cadillacs & Dinosaurs obteve seus quinze minutos de fama e seus produtos licenciados, inclusive o videogame o qual você lembra.

Em fevereiro de 1994, aproveitando-se o intervalo extendido entre Xenozoic Tales 12 e 13, a Topps, com autorização e consultoria do próprio Mark Schultz, começa a publicar histórias inéditas, coloridas, sob o título de Cadillacs & Dinosaurs também. Estas histórias eram escritas por Roy Thomas e ilustradas por uma pletora de artistas, entre eles Esteban Maroto e Dick Giordano. A publicação da Topps durou nove edições. No entanto, Schultz ainda não havia terminado de escrever a saga Xenozoic Tales, e no momento da primeira edição da Topps, Hannah e Jack estavam numa expedição entre a Cidade no Mar e a Tribo Wassoon para desvendar de uma vez por todas os mistérios do ecossistema paradoxal (desde o número 11 de XT), então ficou decidido que todas as histórias de C&D da Topps deveriam se passar entre os números 10 e 11 de XT da Kitchen Sink. A Topps terminou Cadillacs & Dinosaurs em Novembro de 1994.

Enquanto isso, Xenozoic Tales da Kitchen Sink só veio a terminar em outubro de 1996. Por três números (12, 13 e 14) ela trouxe na capa OS DOIS TÍTULOS. Confusão pouca é bobagem.

E desde então…

A última edição de Xenozoic Tales termina num cliffhanger, com abertura para mais aventuras posteriores. Porém, desde aquele ano Mark Schultz não se pronuncia sobre o assunto, preferindo continuar trabalhando nas tiras de Príncipe Valente. Suas histórias da Era Xenozóica ainda podem ser adquiridas num formato bem bacana, se você estiver disposto a conhecer e prestigiar. Sua obra influenciou grandes artistas contemporâneos como Frank Cho e Cary Nord.

Eu creio que Xenozoic Tales é um dos quadrinhos mais divertidos que já li, e mesmo assim não consigo classificá-lo. É um pulp sci-fi que mistura fantasia e preocupação ecológica, bem escrito e bem equilibrado, com uma bela arte a qual prende os olhos. Ler estes quadrinhos é tão viciante quanto jogar o beat'em up do arcade, e sem a frustração de perder todas as suas vidas, pois nas HQs, os heróis Jack e Hannah sempre se saem bem, apesar das lutas e dificuldades. E você acaba querendo mais, muito mais!

Sobre o autor

Matheus Vale

Matheus Vale, o “HQ-Man”, é quadrinhologista, arqueocomicólogo e teórico da Nona Arte, e dedica um tempo absurdo com essas bobagens, porque ama todos esses universos.

7 comentários

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  1. William_8

    Valeu pela informação, post EXCELENTE!!!!

    1. djunior

      putz cara,garimpando encontrei alguem mais que sabe do que está falando…realmente a ambientação,personagens, tudo é apaixonante…
      ha comentar…
      a rocktet science lançava uma sequencia pouco conhecida,em um roteiro supervisionado também pelo próprio schultz.jack e hanna tinham que correr contra o tempo e contra a governadora ,que em mais uma demonstração de irresponsabilidade poderia causar o segundo cataclisma,segundo os repteis-humanoides.
      o cartoon tbm não foi de todo o mal,preservou boa parte da originalidade da história,coisa rara em adaptações.era um desenho fraco,se comparado a outros da mesma época.
      muito obrigado pelo post,muito bom mesmo!
       

  2. Renan

    Não sou fã de quadrinhos, na tela de apresentação do fliperama cadillacs e dinossauros vi que era baseado nos quadrinhos de Mark Schultz. Por curiosidade fui atrás da revista. Imagine a minha surpresa ao ver uma estória tão grandiosa e que te prende querendo ler o próximo episódio. O meio era barato uma simples revista em quadrinhos, mas a estória batia e humilhava muitos filmes milionários de Hollywood. Considero Mark Schultz um gênio desconhecido do calibre de George Lucas que teve patrocinador para criar Star Wars. Com tanto remake inútil em Hollywood, me pergunto o porquê do mundo da era xenozóica ser completamente esquecido.

  3. Pedro Elefante

    Artigo muito bom! Fui procurar saber afinal que diabos era "aquela hq" onde o jogo para Arcade se baseava e encontrei essa matéria. Belíssima redação, da vontade de sair correndo pra ler a Série.

  4. flávio madmax

    no pirate bay acabei de baixar todas as ediçoes dessa obra fantástica

  5. remy

    Mano, gostaria muito de ler os quadrinhos tando XT quanto CD. Como faço? Onde consigo encontrar online ou para download? Se puder me passar um link pelo email ou face ficarei muito feliz, estou procurando a muito tempo e o melhor e mais informativo sobre a hq foi aqui. Vlw. Meu face é “remy branco”

    1. Matheus Vale

      Até queria te ajudar, Remy, mas a locadora onde aluguei essas HQs fechou, se é que você me entende… Sorry.

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